UMA AGUARELA

 

Nuvens, fumo, girassois, azul do ceu...

5.05.2006



Sinto-me montada numa bicicleta parada há longos anos, cuja corrente está demasiado enferrujada…
Saberei ainda andar?

Escrito por uma às 1:31 da manhã

4.26.2006

A mulher que regressara a casa era outra. Não no gesto e na fala mas sim no seu aspecto físico. Agora mostrava um tronco largo. Se pelo menos fosse resultante de uma maior massa muscular! Cobria-lhe o tronco antigamente esguio e magro, um manto de sebo com dobras e mais dobras. Lembrava um casaco de pele lentamente costurado pelo psicopata (de um filme visto em tempos) que após capturar as suas vítimas guardava-as uns tempos para uma simples engorda e só depois lhes tirava aquele revestimento a que vulgarmente se denominou de pele.

Escrito por uma às 9:41 da tarde

4.21.2006



Tudo mudou.
Aquela casa robusta que via da janela do quarto é hoje mais uma casa de linhas modernas tão banal como as que lhe são próximas. Já não desperta qualquer curiosidade nem inspira nenhum conto.
M. chegou e ocupou o seu espaço, todo o espaço. Não sobrou tempo para fotografarmos os comboios nem para perdermo-nos em noites de abraços. Tudo me é estranho, mesmo as saudades de outros tempos. A vida é tão estranha...

Escrito por uma às 3:25 da tarde

8.20.2004




Sabia que os sprays de graffiti iriam ter alguma utilidade!!
Ainda apenas nascia o sol e já eu escrevia em todas as paredes da casa: TENHO UMA FLOR DENTRO DE MIM.
É verdade que também fui à janela e gritei: TENHO UMA FLOR DENTRO DE MIM!!
Descobri que a flor não é grande nem pequena: é a flor; não é vermelha nem azul nem amarela nem branca: é a flor.



Escrito por uma às 8:02 da manhã

8.18.2004








- E quando formos velhinhos, velhinhos, cuidaremos um do outro?
- Acho que sim...


Escrito por uma às 12:05 da manhã

8.15.2004




Ainda recordava quando quisera escrever uma frase, uma única frase que ao ser lida ofertasse uma paz absoluta… Nunca chegara a descobrir as palavras mágicas ou talvez a virgula que fizesse a diferença. Agora sentia um cansaço que não mais estagnava. Abria a ultima embalagem e ainda pensara em diversificar o líquido que preenchia meio copo mas os músculos estavam tolhidos e apenas continuara semi-deitada ou semi-sentada, vá-se lá saber. Ainda procurava a palavra mas mesmo que a ouvisse não a poderia reproduzir. Os dedos pousavam obstinadamente no teclado. No ecrã nada mais surgia senão letras soltas e iteradas sem sentido ou de sentido absurdo.
dddddddddddaaaaaaaaaaaammmmmmmm





Escrito por uma às 3:52 da tarde

8.01.2004




Não será por poder, se a vender, nem por riqueza.
Se a vender será pelo seu sossego que nunca chega, pela serenidade de uma paz que se vive. Esvaziarei o pensamento para encher o coração que nunca tem suficiente.

Escrito por uma às 7:39 da tarde

7.11.2004




Ele não sabe já como tudo começou. Seria ainda muito petiz quando pela primeira vez sentiu uma estranha sensação de bem-estar ao observar os seus pais dando um fugitivo beijo na boca. Sentiu-se perplexo, mas ao mesmo tempo envergonhado. Um grande rubor percorreu-lhe todo o rosto. Sentiu-se a estremecer e algo aconteceu.
Foi a partir de então que se habituou a andar pelas frestas dos quartos, das paredes, das sebes e das retretes a observar o que as outras pessoas faziam escondidas. Sentia-se excitado. Mas começou, igualmente, a excitar-se com as histórias das revistas, dos jornais, dos filmes e, mais tarde, até mesmo com as conversas mais ou menos íntimas que as amigas lhe contavam. Desenvolveu uma habilidade pela mais pura e perversa obscenidade.
Para melhor esconder os seus intuitos, unicamente obscenos, de auto-satisfação erótico-sexual, desenvolveu uma estratégia: doravante iria convencer as suas amigas de que era culto, sensível e bom rapaz. Acima de tudo, cultivaria junto delas a ideia de que seria seu amigo e de que a amizade seria um valor acima de qualquer suspeita. Ficariam assim mais permeáveis às suas aventuras voyeuristas. Do mesmo modo que a aranha, este seria o modo como construiria a sua teia.



Escrito por uma às 12:12 da tarde

7.01.2004



Podíamos ir fotografar comboios de mercadorias… e tantas outras coisas.



Escrito por uma às 1:28 da manhã

6.28.2004




Havia um sonho que nunca se realizou. E um sentido que fugira. Também uma esperança que se diluíra. No chão unicolor permanecia imóvel, aquela que se esquecera de fugir. Sons iterativos lembravam palavras idênticas. Ao longe avançavam rostos cobertos de máscaras semelhantes, lentos, quase que estagnados num ponto do mesmo fundo, de uma só cor, de um só ruído. O vestido da mesma cor cobria-lhe o corpo, deixando apenas descoberta uma face impávida de olhar fixo noutro ponto muito acima das montanhas e das estrelas. As aves que voaram perto estavam disformes. Noutro momento pareceram avançar sobre ela tão destrutivas como nunca ninguém as vira. Na mão direita segurava a cruz, sobre o ventre repousava o desenho de uma flor inventada, no colo brilhava o colar de ouro que combinava com a pulseira que não usava. A mão esquerda, afastada do corpo, segurava o diário de um viajante que sonhava com o regresso. O cabelo penteado para trás descobria um poema escrito na pele, de sete versos, sem rimas, mas que contava a história. O fundo de uma só cor de sangue, escurecia.



Escrito por uma às 9:42 da tarde

6.20.2004



Se me perguntares se o quero dir-te-ei que não. Diz-me então porque te transformo paulatinamente naquele menos feliz, naquele que não pode acreditar, naquele que não deve estender a mão como antes o fazia. Diz-me porque mancho a bondade do teu sorriso e limpo-te as lágrimas de fragilidade que brotam nos teus olhos de menino. Diz-me porque não me deixo apenas adormecer no abraço de mil ternuras que um dia me disseste existirem.



Escrito por uma às 7:04 da tarde

5.26.2004



Rodopiava de pés descalços, com o seu vestido ao vento, como se o seu corpo fosse uma folha pousada no coração. Mas o que mais o cativava era sem dúvida aquele sorriso tão claro e aberto de mulher resplandecendo pura felicidade. Sentado, ele olhava-a como que esquecido de tudo o resto. Ou talvez estivesse sonhando uma vida que já vivera. Pouco a pouco esboçou aquele sorriso que as pessoas fazem quando o seu caminho se cruza com o sentido íntimo do mundo. Sorriu. E ela compreendeu que naquele sorriso cabia o seu corpo todo e o mar. E então disse-lhe: "porque não me levas contigo?".
Ele sorriu ainda mais e agora não era apenas o corpo e o mar que lá cabia. Estava lá o próprio mundo. E respondeu: "queres muito?"
"Sim, quero muito". "Mas não reparaste, ainda, que já te trago no meu sorriso?"



Escrito por uma às 8:36 da tarde



- Já experimentaste tocar bateria e cantar simultaneamente? - perguntara ele com aquele eterno ar de sempre menino.
Nesse instante balançara o seu tronco ao som da música que tocava levemente. Sorri-lhe. Saberia ele que era a inocência do seu gesto e sorriso que me enternecia daquela forma?



Escrito por uma às 12:34 da manhã

5.25.2004




Do outro lado do espelho está a tua magia, a tua afeição pelas árvores e os rios e também os teus risos de criança perdida e mesmo a tua ânsia de correr em direcção à lua. Por vezes adormeço no teu regaço enquanto me falas de uma poesia de mil flores lilases e de todos os cheiros. Nesses momentos esqueço-me de mim e de ti e daquele e daquela e de todas as tristezas e de todos os requerimentos. Do lado de cá deste espelho está o meu desejo de fuga e de buscar todas as tuas magias e de as encontrar aqui e também aí, ao teu lado e dentro de mim. Deste lado choro por a magia não ser simples como fora há dias do lado de lá.



Escrito por uma às 11:55 da tarde




O que te prometo é mais que um esforço físico; é mais que uma dor ou flagelação. É uma promessa de respeito, de ternura e de amor. É a promessa da tua palavra que darei a conhecer, de uma mão sempre estendida e de um sorriso sempre oferecido.


Escrito por uma às 11:15 da tarde

5.19.2004




Nesse dia choveu. Choveu sim. mas, então, de onde vinha aquela luz? Porque estava o tempo noutro tempo e tempo e lugar eram apenas uma maneira de chamar pelo seu nome?
O mundo tornara-se estranho e não havia barcos no mar. Havia talvez uma dor no ar, na chuva daquele fim de tarde. Mas como contrariar a visita da flor? Deixou-se cair de joelhos sobre a maresia da noite e simplesmente aconteceu.



Escrito por uma às 11:51 da tarde




No princípio ela pensou que fosse como os outros. E por que haveria de ser diferente? utilizou então várias maneiras de o considerar. Primeiro pensou que seria apenas um vulgar fazedor de imbróglios e laçou-lhe algumas confusões. Foi quando descobriu que, para onde quer que olhasse, tudo lhe pertencia já. Primeiro um buraco muito grande no peito, depois um estremecimento total no seu coração. A sua alma pertencia-lhe e, no entanto, ainda não sabia. Era só um leve e discreto pressentimento.



Escrito por uma às 11:46 da tarde

5.16.2004




Em tempos olhava para os rios, para as pontas das árvores mais altas, para as montanhas e até para as planícies, procurando distinguir-te. Um dia entrei no silêncio de uma igreja. Às vezes pensava sentir-te na palavra de alguém e num gesto que me destinavam. Também esperei ver-te numa ternura que subitamente senti. Ainda olho para as estrelas em noites como esta, por estarem lá no alto, ainda me detenho numa mágoa sentida por estar lá no fundo mas perdoa-me. Perdoa não te reconhecer.



Escrito por uma às 10:33 da tarde

Sentia-se neste estado de semi-consciência, parecia-lhe, já há alguns dias. Dias feitos de vontades não sentidas, de sorrisos prefabricados, de palavras vazias. Soubera-lhe a um último trajecto, um trajecto triste, demasiado despejado, onde não sentira nenhuma carícia e no entanto roçara o seu corpo. Colhera uma flor sem lhe sentir o perfume, saboreara sem gostar. Tão perto, ouvira o canto das rãs, demasiado sonoro (estaríamos em período de reprodução?) em cada hora, em cada minuto, que não deixara de sentir como uma despedida. Tudo teria que suceder demasiado urgentemente para existir. Faltava tempo… Era hora de desistir da flor. No rádio ouvia palavras: eu não sou eu nem sou o outro. Sou qualquer coisa de intermédio…




Escrito por uma às 7:44 da tarde

5.09.2004




E digo mais: não só no jogo mas também na vida, deveríamos poder esccolher, como bónus, tempo em vez de pontos...
Só assim "Excellent" teria algum significado.

Escrito por uma às 12:52 da tarde